
Nas
rochas da praia uma pequena imagem de São Sebastião abençoava
os barcos que saíam a cada madrugada, com candeeiros acesos. No alto
da barreira, nas casas de taipa, as mulheres ocupavam as lentas horas de espera
ciscando o chão batido, fazendo grude, buscando água na cacimba,
lavando a roupa no rio. Naqueles tempos, as pessoas tinham medo de atravessar
as densas florestas que as separavam dos parentes em Tibau e da longínqua
feira de Goianinha.
Ao que parece, o atual povoado de Pipa foi fundado há cerca de 200 anos;
no entanto, a história deste local é bem mais antiga, remontando
à época em que era um acampamento de índios potiguares,
posteriormente aldeiados em Arês e Vila Flor. Restos de cerâmica
e ferramentas de pedra, encontrados em diversos pontos do município,
atestam essa civilização desaparecida.
No início do Brasil Colônia, a região era dominada pelos
franceses que, ao que parece, exploravam o pau-brasil, papagaios, peles de animais
e outros produtos da Terra. Para recuperar o território, os portugueses
tiveram que pegar em armas. As escaramuças se prolongaram por mais de
50 anos, porque os franceses tinham os índios como aliados. Somente no
final do século XVI os portugueses conseguiram estabelecer-se no litoral
do Estado, construindo uma fortaleza que era o começo da cidade de Natal,
porém 35 anos mais tarde foram novamente desalojados pelos holandeses.
Após a expulsão dos holandeses, em 1654, surgiu a Confederação
dos Cariris, rebelião generalizada das tribos indígenas contra
a escravidão, que durou de 1687 até o final do século XVII.
A região de Pipa deve ter participado desses conflitos. Sabe-se que a
menos de 20km houve o massacre de Cunhaú e a menos de 10km o massacre
da Ilha dos Flamengos. A grande enseada, cercada por magníficas falésias,
que se inicia na vila de pescadores de Pipa e termina na Barra da Lagoa de Guaraíras,
em Tibau do Sul, é subdividida pela Ponta do Madeiro e protegida contra
ventos e correntezas pelo Cabo Verde ("Morro dos Amores").
Parece
ter sido usado para ancoragem e reparo de barcos à vela, desde o início
da colonização. Indica a história que na Capitania da Paraíba,
na qual se englobava parte do Rio Grande do Norte, existiam quatro baías
nas quais grandes barcos e iates podiam aportar, e dentre elas, o Ponto
de Pipas (in Fontes para a História do Brasil Holandês,
de José Antônio G. de Mello, 1981, ed. MEC/STHAM/Pró-Memória).
Outra
citação informa que: "Os principais rios da Capitania são
o Rio Grande, do qual recebeu o nome da Capitania, e no qual entram navios de
muito porte, e o Cunhaú, que iates e barcos podem freqüentar, além
de pequenas baías onde navios podem ser recolhidos, como Ponto de Pipas,
Baía Formosa, Ponta Negra e Marten Tyssens, baía ao norte do Rio
Grande"(op. cit. pg 175). O nome "Ponta
do Madeiro" deve remontar também a esta época, referindo-se
a uma tora de madeira que teria ficado encalhado ali, nos arrecifes.
Os colonizadores trouxeram novas culturas agrícolas de outros continentes
e aos poucos os coqueirais, canaviais e campos de gado tomaram conta da paisagem,
juntamente com jegues, carros de boi, jangadas e vaquejadas, criando o cenário
que reconhecemos como tipicamente "nordestino".
O que resta hoje do passado indígena é um povo de sangue rico
e espirituoso, algumas palavras tupis embutidas nos nomes geográficos
e uns remanescentes das extensas florestas, que originalmente recobriam quase
toda a região.
Hoje os últimos remanescentes de floresta estão também
em processo de expurgação, seguindo o mesmo impulso desenvolvimentista.
O trabalho científico está mal se iniciando e já está
desaparecendo o seu material de pesquisa, incluindo as novas espécies
de fauna recentemente descobertas, que talvez não tenham grande chance
de sobrevivência.
O grande desafio para todos os amantes de Pipa é conseguir disciplinar
um pouco as pressões especulativas e proteger os locais significativos,
que não são apenas maravilhas da Natureza mas pontos de referência
para a comunidade humana que dele tira o seu sustento e sentido de vida.