O
município de Tibau do Sul ocupa aproximadamente 16 km de litoral situado
entre as latitudes 6º10'50" S e 6º17'10" S. No trecho entre
Tibau e Cacimbinhas, a linha da costa segue no sentido noroeste-sudeste, sofrendo
assim a plena força dos ventos prevalentes e das tempestades originando
na Zona de Convergência Intertropical, ao passo que da ponta do Madeiro
até Pipa é orientada no sentido oeste-leste, o que providencia
abrigo para os barcos e melhores condições para a agricultura.
O último trecho (do Chapadão a Sibaúma) dispõe-se
novamente do norte para o sul, sendo marcado por ventos fortes e ondas agressivas.
A
geomorfologia apresenta feições marcantes: praias arenosas protegidas
por altas falésias de arenito e argilita (até 45 m.), as quais
são separadas da planície litorânea ("tabuleiro")
por um cordão de dunas que atingem 80 - 90m de altura sendo cobertas
de vegetação arbustivo-arbórea. Entre as dunas há
vales providos de verdadeiras florestas do tipo costeiro, com um porte que pode
chegar a 20m de altura. Tavares (1964) considera que essa mata é a extensão
final da Floresta Atlântica, que provavelmente existia antes das dunas,
que se formaram soterrando parte da mata.
Neste espaço de singular interesse científico, incentivamos atividades
de turismo contemplativo, educação ambiental e pesquisas. Ao longo
dos anos, à medida que a área ampliou-se, foi implantada uma infra-estrutura
básica para visitantes, sem, no entanto, prejudicar a rusticidade e tranqüilidade.
É de se notar que o mapa de escala 1:100.000 do Exército e os
mapas dele derivados são equivocados ao mostrar Pipa no lugar ocupado
pelo povoado de Sibaúma.
A)
GEOLOGIA
Essa faixa de litoral é com certeza um
dos mais espetaculares exemplos da formação geológica denominada
"Barreiras", que se distribui desde o vale amazônico até
o Rio do Janeiro, através das costas norte, nordeste e leste do Brasil.
É constituída de argilitos (barro e piçarro) e arenitos
(saibro) que são aconglomerados (acimentados em conjuntos) e foram depositados
no período terciário. Os arenitos são enrijecidos por concentrações
de óxido de ferro, o que contribui para a sua preservação
e lhes confere uma rica coloração.
No
ponto de confronto com o mar as barreiras são talhadas em imponentes
falésias verticais (com altura de até 40m), as quais em alguns
locais estão protegidas do mar por depósitos de areia e vegetação,
e em outros ainda estão em ativo processo de erosão pelas ondas.
Banhados pelo oceano, aparecem em diversos pontos os arrecifes, atestando antigas
linhas de costa, emersas pelas variações do nível do mar
na época pliocênica-pleistocênica.
Na maior parte, os sedimentos da formação Barreiras são
cobertos por dunas de areia formadas pela ação do vento, chegando,
em alguns pontos, à cota de 80m acima do nível do mar. Essas dunas
são de formato parabólico, apontadas geralmente para o noroeste,
com a sua frente às vezes quase em perpendicular, formando socavões
profundos no lado de sotavento. Embora penetrem vários quilômetros
terra adentro, originaram-se nas praias expostas à plena força
do vento alísio, ao sul de Pipa. Provavelmente foram formadas há
cerca de 4 mil anos atrás quando imperavam condições de
clima semi-árido, seguidas de um período mais úmido que
permitiu a fixação de vegetação.
O sistema de barreiras e dunas estabilizadas por plantas constitui uma estrutura
frágil em termos de mecânica dos solos, sendo mantido até
hoje graças às condições de clima ameno, à
queda relativa do nível do mar nos últimos milênios e às
necessidades moderadas da população local, cujas práticas
de trabalho não feriam seriamente o ambiente.
A experiência mostra que, uma vez desestabilizado, geralmente por atos
humanos, o conjunto se desestrutura completamente, pelos efeitos dos ventos,
chuvas ou ondas.Nada poderia ilustrar esta afirmação melhor do
que a própria cidade de Tibau do Sul, devastada duas vezes pelas forças
da natureza, primeira pelo avanço das dunas e depois pelas enchentes.
Em
Pipa, a situação está ficando bastante crítica,
conforme atestam os muros de arrima e diques de pedras, na praia cada vez mais
reduzida.
B)
CLIMA E HIDROGRAFIA
O clima do litoral oriental do RN, assim
como do Brasil tropical em geral, é regulado pelo conflito entre os ventos
alísios vindo do quadrante leste e correntes atmosféricas perturbadas
surgindo dos outros quadrantes, principalmente do norte.
Os ventos alísios, oriundos das altas pressões subtropicais do
Atlântico sul, sopram durante todo o ano, providenciando um tempo pouco
variável na segunda metade do ano (época da "primavera"
e início do verão). Os ventos norte que trazem as chuvas pesadas
se fazem sentir de modo importante a partir de meados do Verão e atingem
o seu máximo em março-abril, quando a Convergência Intertropical
alcança sua posição mais meridional, no seu deslocamento
sazonal entre as latitudes 5ºN e 5ºS.
Dados pluviométricos dos postos da SUDENE em Goianinha e Canguaretama
(os mais próximos da área de Pipa) mostram bastante variabilidade,
com o máximo das chuvas ocorrendo freqüentemente nos meses de maio-junho-julho
e não em março-abril. O total anual é entre 800 e 1600
mm (Goianinha) ou 1000 e 2200 mm (Canguaretama), mas dados particulares da Ponta
do Madeiro, ao longo de um período de 5 anos, mostram uma precipitação
bem mais alta, indo de 1800 mm até quase 3000 mm, com uma média
mensal de 324 mm durante os 5 meses do "inverno". Embora quase 70%
das chuvas anuais caiam durante o inverno, é difícil encontrar
o mês que não tenha nenhuma chuva, mesmo no verão.
Apesar dessas chuvas abundantes e relativamente bem distribuídas, a área
de Pipa não possui cursos de água superficiais exceto nas suas
extremidades - a lagoa de Guaraíras ao norte e o rio do Galhardo/Catu
no oeste e sul. Há apenas pequenas "vertentes" (fontes perenes)
de água nas encostas da praia do Madeiro, Cacimbinhas e perto de Sibaúma
nas Pedras d'Água, além das poças que se formam no barro
das planícies de Cacimbinhas e do Chapadão por época das
chuvas. O povoado de Pipa e os sítios em seu entorno dependem, portanto,
das águas subterrâneas das praias e do aqüífero Barreiras.
O
caráter predominante arenoso dos solos e a pequena profundidade dessas
águas (antigamente foram retiradas de cacimbas cavadas na beira da praia
a uma profundidade de poucos metros) indicam sua vulnerabilidade à poluição,
seja por produtos agroquímicos, seja por esgotos domésticos.
Notamos com inquietação
o recente desmatamento ao longo do rio Galhardo, que passa pelo tabuleiro a
uma distância de 2 a 4 km da costa, desembocando no rio do Catu, que por
sua vez desemboca no mar. Durante os anos secos o rio quase desaparece e logo
deverá seguir o destino dos outros "rios" outrora perenes do
litoral do RN, que hoje passam boa parte do ano inertes, prejudicando a lavoura.
Apesar da variação de insolação e (em escala menor)
das temperaturas ao longo do ano (ocorrendo-se o máximo em novembro-dezembro-janeiro),
a umidade relativa do ar fica quase constante em 80%. Isso, juntamente com o
regime das chuvas, mantém as árvores em estado perenifólio
mas não permite a formação de um rico estrato epífito
nas matas.
C) PEDOLOGIA (SOLOS)
A maior parte da área é
coberta de dunas cujo alinhamento reflete os ventos suestes predominantes. Possuem
um solo areno-quartzoso profundo com fertilidade natural muito baixa, pobre
em macro e micro nutrientes. Atrás das dunas afloram os solos derivados
dos sedimentos do grupo Barreiras, com relevo quase plano (tabuleiro, de altitude
média 40m), o que favorece a mecanização agrícola.
Entretanto, o aproveitamento racional destas terras fracas requer grandes investimentos
visando a melhoria de sua fertilidade através de adubos orgânicos
e minerais (inclusive micronutrientes), devendo tal adubação ser
feita de forma parcelada, em face da textura arenosa do solo. Sem essas atenções
constantes a terra só tem utilidade para a cultura do cajueiro e coqueiro.
Como no caso da Amazônia, é fácil se enganar pelas imponentes
matas ainda existentes em alguns locais, que parecem indicar um solo de alta
fertilidade. No entanto, a alta porosidade e permeabilidade do solo, especialmente
nos "morros" (dunas), dificultam o estabelecimento de vegetação
de porte e a experiência mostra que quando uma área é destocada
tem grande tendência para a desertificação.
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