
Exige
que o desenvolvimento econômico urbano seja feito de forma ponderada,
evitando decisões casuais ou oportunistas.
Antigamente,
a Mata Atlântica estendia-se quase ininterruptamente ao longo da costa
brasileira, do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul , interiorizando-se
até cerca de 100 km na costa norte e até mais de 500 km no litoral
sul, alcançando também a Argentina e o Paraguai. Nos 500 anos
de Brasil Colônia, Império e República, a "Zona da
Mata" passou por uma série de ciclos de conversão de seus
ecossistemas em outros usos: cana-de-açúcar, campos de pastagem
de gado, cacau, banana, eucalipto e tantos outros. Neste processo, a floresta
se reduziu de 1.295.000 km 2 para menos de um décimo deste tamanho, e
mesmo assim, muito fragmentada e deteriorada. A região abriga hoje os
maiores pólos industriais e as mais densas concentrações
urbanas do país, que continuam crescendo. Os últimos redutos de
floresta correm risco de serem invadidos por plantações de coqueiros,
loteamentos e estradas. Todos os argumentos intelectuais e instrumentos legais
são poucos frente à nova avalanche de oportunismo.
Não
é só romantismo querer salvar a floresta e os trechos mais significativos
da paisagem litorânea. Além de sua beleza visual e influência
espiritual, a Mata Atlântica abriga uma parcela significativa da diversidade
biológica do país e assegura serviços importantes para
cerca de 120 milhões de pessoas que habitam seus domínios, como
o abastecimento de água, a estabilização do solo, filtração
do ar, amenização do clima e controle de pragas. A riqueza da
sua biodiversidade é tão significativa que os dois maiores recordes
mundiais de diversidade botânica foram registrados nesta região.
É um dos recordistas também em termos do número de endemismos
(espécies que não são encontradas em qualquer outro lugar
no Brasil ou no mundo).
Além
da floresta, a própria orla marítima (ilhas, praias, arrecifes,
falésias, dunas e serras) tem encantos, valores e funções
ecológicas que justificam a preservação de extensos trechos,
evitando o seu sacrifício em prol de interesses de curto prazo no complicado
jogo econômico.
Cabe à nova geração de brasileiros preservar o que resta
do patrimônio natural e recuperar a sua qualidade, consertando os erros
dos séculos passados.
Trabalhos
de conservação no Santuário
Durante
os seus 15 anos de existência, o Santuário tem tentado cuidar do
ambiente como um todo. Consideramos que a paisagem não é apenas
uma formação natural, que evoluiu ao longo de milhões de
anos, mas também um recurso beneficiado pela comunidade humana, um repositório
dos conhecimentos e memórias da população que dela tira
o seu sustento e sentido de vida.
Por isto, nos dedicamos a estudos da genealogia, costumes e tradições
dos pipenses e procuramos contratar pessoas da região como os nossos
jardineiros e guias.
Nossos trabalhos
práticos de conservaçaõ incluem obras de proteção
contra a erosão, a reciclagem de matéria orgânica, e reflorestamento
com espécies nativas.
No plano político, o Santuário tem um assento no Conselho Municipal
de Turismo e é responsável pelo monitoramento de um dos trechos
do litoral, no âmbito do Projeto Orla.
Nos arredores de
várias aldeias neste município, a floresta foi quase toda sacrificada,
deixando a comunidade sem lenha, carvão e material de construção,
sem falar em alimentos e remédios silvestres. Já em Pipa, as matas
foram preservadas por iniciativa dos habitantes, que entenderam que as mesmas
representam um recurso coletivo perene e renovável. Entretanto, a crescente
venda de antigas áreas de roçado para visitantes vem criando uma
grande pressão em cima da mata virgem, tanto para fins de extrativismo
como de agricultura. O ritmo de utilização dessa faixa de vegetação
há muito ultrapassa o tempo natural de reposição das árvores.
Além disto, a área está sempre em perigo de pegar fogo
durante as queimadas dos roçados e dos canaviais vizinhos.
Da mesma forma,
o inconseqüente desmatamento e ocupação desordenada das encostas
(falésias), por interesses particulares, culminará com a destruição
de toda a beleza natural e ainda comprometer a estabilidade das barreiras. Sem
decisões ponderadas, não será possível a manutenção
do ambiente litorâneo geral da região, o que detonará no
colapso do turismo.
Várias áreas representativas precisam ser salvaguardadas, deixadas
em estado rústico para que restem diferentes opções para
as gerações futuras.
Os nossos filhos
serão os herdeiros das nossas ações prudentes ou imprudentes.
Eles podem enfrentar um mundo dilapidado, poluído, coberto por aglomerações
urbanas disformes, marcado por cataclismos. Ou então, um planeta em recuperação,
guiado por uma nova ética.
Corredores
Ecológicos
Uma
área do tamanho do Santuário Ecológico de Pipa é
pequena demais para ter boa representatividade de espécies e para garantir
a sobrevivência das que estão presentes.
A conservação da biodiversidade a longo prazo requer o desenvolvimento
de zonas-tampão e a criação de corredores ecológicos
conectando áreas protegidas, de forma a possibilitar o livro movimento
e propagação de sementes das populações da fauna
e flora atualmente isoladas.
Outra vantagem dos corredores ecológicos é permitir a concentração
de esforços e investimentos para preservar a biodiversidade e unir as
populações regionais em prol do propósito de desenvolvimento
sustentável.
Nos corredores, apóia-se a criação de Unidades de Conservação
e consolidadação das já existentes, bem como atividades
econômicas que coadunem com a finalidade de melhorar a ligação
entre as unidades, desde o manejo florestal sustentável ao ecoturismo.
"O desenho dos corredores precisa levar em conta princípios básicos
de compartimentação e integração bio regional (bacias
hidrográficas, regiões homogêneas etc.).
Megacorredores só têm sentido na Amazônia, que tem enormes
trechos de mata contínua. Na Mata Atlântica, o único possível
é o da Serra do Mar/Serra Geral (regiões Sul e Sudeste), na Floresta
Ombrófila Densa. No Nordeste, pode-se pensar em mini-corredores, ligando
"ilhas" remanescentes de floresta ao longo de vários quilômetros.
O
caso de Pipa
Durante
quanto tempo a mais Pipa vai continuar a transmitir a magia incrível
de comunhão entre o homem e a natureza?
Cada cidadão
pode ajudar, mantendo-se informado sobre o que está sendo planejado e
realizado, assim como participando dos fóruns de discussão.
Já existem
várias entidades representativas da sociedade civil que são bem
ativas, o Núcleo Ecológico de Pipa - NEP e a Associação
dos Hoteleiros de Tibau do Sul e Pipa - ASHTEP, entre outras. Mas existe espaço
para muitas outras, dando ampla voz à comunidade.
Duas possíveis
maneiras de se preservar as riquezas naturais de Pipa seriam:
1) Procurar organizar uma Área de
Proteção Ambiental (APA) participativa, envolvendo todos os
grupos econômicos, tanto os pipenses "nativos" e veranistas
quanto os comerciantes novos;
2) Incentivar a criação de uma Reserva
Extrativista (Resex), onde a população nativa se responsabilize
pela proteção da mata comunitária e dos recursos pesqueiros.
Resta a pergunta: a comunidade de PIPA tem a vontade de seguir este caminho?
Deseja manter o seu caráter único, encantador? Ou prefere perder
as suas riquezas naturais, se tornando apenas mais uma cidade balneária
anônima e tumultuada, entre tantas outras no mundo?
Para saber mais sobre as pesquisas realizadas no Santuário, clique
aqui
Para saber mais sobre nossos programas educacionais, clique
aqui